Esta série não registra paisagens nem monumentos. Ela se ocupa do que costuma ficar fora do enquadramento: a tinta que descasca, o metal oxidado, a parede repintada tantas vezes que guarda várias cores ao mesmo tempo, o reboco que cede e revela o tijolo.
Em Santiago, a cidade aparece em fragmentos de concreto, grafite e sinalização gasta, uma geometria urbana interrompida pelo uso. Em Valparaíso, os morros oferecem um excesso de cor: fachadas de zinco pintadas, escadarias e murais sobrepostos, numa paleta que parece improvisada e é, ao mesmo tempo, coerente. Viña del Mar traz outra temperatura, com a luz do Pacífico, superfícies mais limpas e a ação lenta do sal e do vento sobre os materiais.
Em Santiago, a cordilheira não é um destino distante. Ela está presente o tempo todo, como um limite visível no fim de cada avenida, uma parede de pedra e neve que define o horizonte da cidade. O Chile é um território estreito, espremido entre o Pacífico e os Andes, e essa condição geográfica se percebe no corpo: para qualquer lado que se olhe, há montanha ou há mar.
Nesta série, a cordilheira aparece em duas escalas. De longe, ela é massa e silhueta: planos sobrepostos que se diluem na atmosfera, picos nevados recortados contra o céu e a neblina que apaga e revela as camadas. De perto, ela se transforma em matéria: rocha fraturada, sedimento, a vegetação baixa e resistente da altitude e a neve que derrete e marca a pedra.